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09/02/2009
Mobilidade amazônica é ignorada
No imaginário de grande parte da população, a região
amazônica é um monobloco verde às vezes açoitado
por disputas fundiárias ou desmatamento aqui e ali, mas sempre um gigante
estático. Um artigo publicado na edição de janeiro da revista
Democracia Viva mostra que o estereótipo está muito distante
da realidade. A Amazônia é, na verdade, um espaço que sedia
inúmeras disputas e, mais do que isso, tem seu perfil populacional e
a relação desta população com a terra se alterando
a cada momento. Segundo o artigo, assinado pelos antropólogos Maia Sprandel
e Guilherme Mansur Dias, a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios
(PNAD) de 2008 mostrou que, em 2007, as pessoas não naturais do município
de residência representavam 43% da população residente na
Região Norte, com alguns picos como no estado de Roraima, onde mais da
metade (50,5%) da população são moradores não-naturais.
E não se trata apenas de um fluxo de brasileiros, como acontece há
décadas, mas também novos fenômenos, como o fluxo crescente
de chineses para Rondônia e Acre, ou de colombianos, que já seriam
17 mil na Amazônia brasileira, estes fugindo de situações
de conflito, conforme o Alto Comissariado das Nações Unidas para
Refugiados. A mobilidade intensa também acontece de dentro para fora.
Rondônia, por exemplo, está sendo identificada como crescente remetente
de brasileiros para o exterior, principalmente a Europa. Isso sem contar o grande
número de imigrantes saindo de toda a região para países vizinhos,
como Bolívia, Venezuela e Suriname. Tais dados de mobilidade geográfica
e muitos outros são, segundo o artigo, ignorados pela maior parte do
conteúdo produzido pela mídia a respeito da Amazônia, tanto
a brasileira quanto a internacional. "Historicamente, a Amazônia
sempre foi um espaço mais falado do que ouvido", afirma o artigo.
Os autores apontam ainda um grave problema que envolve a região: a disputa
de discursos -- diferenças de visão entre ONGs, militares, ecologistas,
governos nacional e locais etc -- e entre mapas administrativos -- as diferentes
agências do governo com mapas voltados para questões fundiárias,
ambientais, militares e indígenas, muitas vezes conflitantes e que consideram
ambientes estanques, quando na verdade eles estão o tempo todo em mudança.
Chega até a haver, na Amazônia, a mudança literal da terra, quando a movimentação das águas constrói,
destrói e altera a conformação de ilhas onde vivem e produzem
populações inteiras por várias gerações,
a exemplo do que acontece em regiões do Baixo Amazonas, como em Santarém,
o que tem prejudica os próprios trabalhos de medição do
Incra.
Para os antropólogos, o Estado e o Judiciário brasileiros são
reféns de uma visão sobre propriedade da terra que não
pode ser aplicada integralmente a esta região, que possui uma dinâmica territorial
muito diferente da utilizada no resto do país, submetida a uma lógica
pouco cartesiana, como a mobilidade dos rios ou os processos sociais interativos
com vizinhos.
Veja também:
Portal do Ibase, que produz a revista Democracia
Viva
Palavras-chave:
Integração nacional, Amazônia, questão fundiária
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