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08/12/2008
Quando o Brasil quis ser português
O Brasil viveu, durante o primeiro período governado por Getúlio
Vargas (1930-1945) uma política racial que visava o "fortalecimento
étnico da nação" estimulando a vinda de imigrantes
portugueses, enquanto se desestimulava o ingresso de imigrantes judeus e de
alguns países. Essas são algumas das informações
que constam da pesquisa de doutorado Laços de Sangue - Privilégios
e Intolerância à Imigração Portuguesa no Brasil (1822-1945),
de José Sacchetta Ramos Mendes. A tese foi apresentada pelo Laboratório
de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER), da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São
Paulo (FFLCH/USP), e divulgada
pela Agência USP de Notícias.
O pesquisador defende a idéia de que os portugueses nunca foram vistos
como estrangeiros no Brasil, e sim como compatriotas, apesar de detectar momentos
de hostilidade e preconceito. No que se refere à legislação
brasileira, os portugueses sempre tiveram privilégios na comparação
com os demais imigrantes, e isso acontece até hoje, já que portugueses
(e outro lusófonos) que possuam um ano de residência fixa no Brasil
podem solicitar a naturalização, enquanto que para pessoas de
outras nacionalidades o prazo é de 15 anos ininterruptos, conforme informou
o pesquisador à Agência.
Segundo a pesquisa, já na Constituição de 1823, os portugueses
não eram considerados estrangeiros. "Qualquer pessoa nascida em
Portugal, que morasse no Brasil, foi considerada brasileira caso concordasse
com a Independência", conta o pesquisador. Na Constituição
de 1934, já durante o regime Vargas, "havia um artigo que limitava
as cotas de entrada para estrangeiros no Brasil, de todas as nacionalidades.
Em 1938, essa Lei foi suspensa apenas para portugueses", diz Mendes. Na
Constituição de 1946, foi colocado um artigo que também
tratava os portugueses com privilégios. "Na época, o antropólogo
Gilberto Freyre e um grupo de deputados defendiam que os portugueses não
deveriam ser considerados estrangeiros", afirmou o pesquisador à
Agência USP.
Entre 1939 e 1945, houve uma redução da imigração
em todo o mundo devido a Segunda Guerra. "Durante o conflito mundial, Vargas
enviou circulares para os serviços diplomáticos do exterior dizendo
que os portugueses poderiam entrar no Brasil. O mesmo presidente que proibiu
a entrada de judeus, incentivou a imigração portuguesa com o objetivo
de "garantir o fortalecimento étnico da nação",
relata a Agência USP. "Isso mostra uma intenção política
clara de negação da realidade brasileira: o País não
deveria ser o que ele era de fato", na avaliação do pesquisador.
José Sacchetta Mendes também cita no trabalho uma carta dirigida
ao chanceler Oswaldo Aranha, escrita em 1943 por Frederico de Castelo Branco
Clarc, presidente do Conselho de Imigração e Colonização,
na qual contava o seguinte trecho: "A orientação era de que
não deveria haver restrição numérica para a entrada
de portugueses no Brasil, visando a formação étnica".
Para seu trabalho, Mendes pesquisou o Arquivo Diplomático do Ministério
dos Negócios Estrangeiros e o Arquivo da Torre do Tombo, em Portugal,
além do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Columbia (EUA).
Segundo ele, estatísticas brasileiras e portuguesas apontam que, entre
1822 e 1950, cerca de 1 milhão e 900 mil portugueses imigraram para o
Brasil.
A pesquisa foi apresentada sob a orientação da professora Maria
Luiza Tucci Carneiro.
Veja também:
Divulgação
do estudo na Agência USP
Palavras-chave:
História, relações Brasil-Portugal, diplomacia, mundo lusófono, Getúlio Vargas, Segunda Gerra Mundial, preconceito racial
Agência
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