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02/12/2008
Caçulismo, baixa renda e forte simbolismo marcam os jogadores de futebol exportados. Que já são mais de cinco mil


Um estudo etnográfico sobre a vida de mais de quarenta jogadores de futebol brasileiros que foram jogar em clubes no exterior concluiu que há um perfil muito parecido de todos eles. A maior parte é composta de filhos caçulas e cerca de 90% deles pertencem às classes sociais mais pobres. Os restantes 10% pertencem à classe média baixa (filhos de funcionário público, enfermeira, professora etc). Apenas um dos jogadores ouvidos era filho de profissional liberal (médico). Há ainda muitas outras características que os unem, como por exemplo a grande prevalência da religião evangélica e de visões semelhantes sobre a primeira grande aquisição com seus novos salários: a aquisição de uma casa para os pais, símbolo de uma segurança supostamente duradoura. Ao contrário do que parte da cobertura jornalística da vida desses profissionais leva a crer, eles não levam uma vida de ostentação no exterior, pois se consideram, em seu íntimo um canal para a transferência de recursos para suas famílias. A pesquisa que chegou a essas conclusões foi feita por cinco anos com os jogadores e seus familiares no Canadá (Toronto), Holanda (Almelo, Groningen, Alkmaar, Roterdã, Amsterdã), Japão (Tóquio), França (Lyon, Le Mans, Nancy, Lille), Mônaco, Bélgica (Charleroi) e também no Brasil (Fortaleza, Salvador, Belém), e publicada na última edição da revista Horizontes Antropológicos (v.14, n.30, Porto Alegre jul./dez. 2008), do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IFCH-UFRGS). A autora é a pesquisadora Carmen Rial, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Rial chama de "caçulismo" a forte presenta de filhos mais novos entre os jogadores que vão para o exterior, e explica o fenômeno com uma questão social: o filho que investe na carreira futebolística precisa, no início da carreira, ser dispensado do trabalho e do sustento da família, um luxo que não é permitido ao filho mais velho. Ela analisa também uma característica interessante desses profissionais: eles são ao mesmo tempo mercadoria e força de trablaho, o que terá alguns efeitos em sua vivência do exterior, tais como a "cidadania estratégica" (a obtenção de cidadania estrangeira por conveniência dos clubes) e a submissão a critérios que têm mais relação com a globalização do futebol e a ação dos grandes clubes do que com a fronteiras nacionais. Mesmo quando adotam a cidadania estrangeira, eles continuam sendo vistos como estrangeiros nos países em que estão e, contatou Rial, também continuam se vendo como estrangeiros. Essa questão identificatória tem grande importância já que a exportação de jogadores, embora não represente em termos financeiros ou numéricos o que representam a exportação de commodities, por exemplo, é de longe a que tem maior força simbólica, não só para os brasileiros, que continuam acompanhando a carreira deles diariamente, mas também para os estrangeiros, que formam sua visão de Brasil de acordo com o comportamento desses profissionais.

Segundo a pesquisadora, há cerca de 5 mil hogadores brasileiros no exterior. Desde 1993, ano em que o Banco Central começou a contabilizar os valores das transferências de jogadores, na categoria de serviços, a pesquisa avalia que a exportação brasileira de jogadores foi responsável pelo ingresso de mais de US$ 1 bilhão em divisas, sem contar valores que são depositados no exterior, um expediente que a pesquisa também considera. Esse comércio de jogadores, na avaliação da pesquisadora, seria mais relevante para alguns clubes do que a venda de direitos de transmissão em TV. Citando matéria públicada no jornal Zero Hora em 30 de agosto de 2007, a pesquisa indica que, no caso do Internacional e do Grêmio, dois clubes que disputam a primeira divisão do futebol brasileiro, "a venda de jogadores para o estrangeiro nos últimos seis anos significou uma receita anual média de R$ 20 milhões para o Inter e de R$ 15 milhões para o Grêmio, superiores aos valores médios obtidos no último ano com a venda do direito de imagem para a televisão (R$ 15 milhões) e com os aportes do quadro social (R$ 12 milhões), e colocando-se assim como a principal fonte de renda de seus orçamentos anuais, que são de cerca de R$ 36 milhões".

O estudo foi financiado pela Capes e pelo CNPq.



Veja também:

Texto integral desta pesquisa na revista Horizontes Antropológicos

 

Palavras-chave:
Antropologia social, futebol, esportes, exportação de jogadores, cartolagem, clubes de futebol

 

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