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24/10/2001
A Igreja privatizada: intenções inconfessáveis e heranças do catolicismo colonial

 
 


Privatizada, com a promoção de missas em casas e fazendas, cooptada de forma implacável pelo poder político da corte real portuguesa e promotora de missas-espetáculo com muita música barroca, a Igreja Católica fornece excelente material de estudo e compreensão dos arranjos sociais no Brasil se for analisada em sua rotina durante um período especial da história do país, quando o Rio de Janeiro tornou-se sede do império português, com a vinda da corte da Europa. As celebrações religiosas refletiam com perfeição a desigualdade social e os arranjos de poder na época. "As missas ensinavam aos que a elas assistiam o significado de ser católico em tempos de Antigo Regime: parte integrante do grêmio comum da Igreja, representado pela assembléia de fiéis reunidos durante a celebração, mas também ocupante de uma ordem social rigidamente estratificada, na qual cada um devia contentar-se com o lugar que lhe era reservado." Essa avaliação foi feita pelo professor Sergio Chahon, pesquisador do catolicismo leigo no Brasil colonial, que defendeu tese de doutorado sobre o tema na Universidade de São Paulo (USP), em setembro.

A aliança entre a celebração litúrgica e o poder político, ampliada pela presença da corte portuguesa, em 1808, forneceu um cenário emblemático do uso da religiosidade como símbolo de afirmação da força dos governantes e principalmente da figura do rei regente, dom João, que só se tornaria rei titular com a morte da mãe, D. Maria I, em 1818. Chahon deu a seguinte entrevista a Prometeu, por email:

O senhor verificou em seu trabalho uma repartição entre espaços público e privado para celebração das missas, que demarcavam posições sociais. Como eram e o que resta disso hoje?

Para responder a essas perguntas é necessário, antes de mais nada, tentar entender o que levava os leigos no Rio de Janeiro do passado a erigir e procurar altares localizados fora dos limites das matrizes paroquiais e demais templos públicos, destinados pela Igreja a servir como sedes para as missas e demais cerimônias da liturgia.

Segundo concluí em minha pesquisa, essa conduta dos leigos podia ser explicada, em parte, por razões de fundo propriamente religioso, ligadas, muitas vezes, aos desafios oferecidos pelas circunstâncias do tempo à vivência cotidiana do catolicismo. Pensa-se aqui, por exemplo, nos parentes e convidados do senhor de engenho, os quais, secundados pela escravaria, agregados e moradores das vizinhanças, vinham assistir à missa dos domingos na capela particular da fazenda, única alternativa disponível de espaço sagrado em um raio de diversas léguas. Feita uma ou outra ressalva, esse gênero de justificativa para a decisão de muitos leigos de procurar alternativas aos templos públicos para cumprir com suas obrigações de católicos continua na ordem do dia ainda hoje, sobretudo, é claro, naquela latitudes mais remotas onde o estabelecimento da rede paroquial é mais recente e precário.

Por outro lado, a ensejar também a repartição entre espaços públicos e privados para a celebração eucarística estavam razões algo mais mundanas, relacionadas, de uma forma geral, à posição superior ocupada pelos agentes da privatização das missas na hierarquia social da época. O melhor exemplo, neste caso, é o dos poucos e selecionados proprietários de altares particulares levantados no recinto doméstico, em cômodos especialmente adaptados - existentes, em média, em pouco menos de um em cada 100 lares nas freguesias do recôncavo da cidade, segundo levantamento feito em visita pastoral do ano de 1794. Para estes proprietários, ordenar a celebração de missas em casa significava o exercício de um privilégio dos mais cobiçados, capaz de atender a anseios por status e prestígio social e de satisfazer ao desejo das famílias aristocráticas de evitar o contato, durante o ofício divino, com os irmãos em Cristo de raças ou estratos reputados como inferiores.

Hoje em dia, já não se tem mais notícias de celebrações executadas regularmente em altares caseiros. Se alguns deles ainda subsistem, o certo é que pouco ou nada conservam da importância que lhes era atribuída enquanto fontes de distinção social para os seus proprietários. Na verdade, a relativa popularidade alcançada pelas missas domésticas no passado deve ser interpretada como característica de um tempo, já longínquo, no qual os discursos, símbolos e ritos católicos impregnavam intensamente todo o conjunto das representações e das práticas sociais. Um tempo, portanto, no qual vários dos membros da chamada "boa sociedade" não hesitavam em fazer os esforços necessários para, na qualidade de promotores das mesmas missas, reunirem as condições ideais para operar a tradicional conjugação entre a afirmação do elitismo em seus múltiplos aspectos e o recurso às diferentes formas de exclusivismo religioso então disponíveis - consideremos, assim, o caso das famílias da aristocracia que mantinham uma ou mais de suas jovens nos conventos ou recolhimentos femininos, e estaremos diante de um procedimento similar, sob esse ângulo, ao aqui analisado.

Quais as intenções que tornam-se transparentes quando se analisam as preferências e atitudes dos fiéis na época escolhida para o estudo. Elas permanecem ainda?

Muitos dos estudos dedicados a compreender o catolicismo leigo em diferentes épocas da história brasileira têm, a meu ver, se empenhado particularmente em sublinhar as distinções entre o ideário e as práticas da liturgia e as da devoção, entre a religião oficial da Igreja dos padres e a religiosidade do povo fiel. Analisar o envolvimento dos simples leigos com a missa, a principal celebração litúrgica ontem e hoje, corresponde, assim, a uma tentativa de unir os dois pólos citados, permitindo iluminar as interseções entre a chamada "constelação sacramental" e a devocional.

Com base neste ponto de partida analítico, e buscando responder às questões propostas, cabe perguntar o que, no passado e no presente, explica o interesse dos leigos católicos pelo "santo sacrifício". Ou, por outras palavras: qual o espaço ocupado pelo mesmo sacrifício nos corações e nas mentes dos católicos?

Há, em primeiro lugar, um modo de conceber a missa que a aproxima dos sacramentos, e que define a participação em seu transcurso como dos principais deveres de um bom católico. Essa noção da missa como obrigação era o que impelia, no passado, os proprietários de escravos a providenciar para que seus plantéis assistissem à cerimônia nas manhãs dos "dias de guarda", liberando os cativos, nestes dias, dos trabalhos servis. É a mesma que, atualmente, leva muitos católicos praticantes a reservar uma hora de cada domingo para comparecer à celebração eucarística na igreja mais próxima.

A pesquisa sobre os leigos e as missas em tempos idos levou-me, contudo, a desvendar outras dimensões da relação entre ambos, menos superficiais do que a ultimamente apresentada. Fui, assim, posto diante da enorme massa de fiéis que, sem acesso ao saber formal e incapaz de assimilar por inteiro as complexidades da mensagem litúrgica, acabava por atribuir significados próprios ao que via e escutava durante cada celebração.

Alguns desses significados permanecem atuais ainda no presente, enquanto outros se têm perdido, como resultado de mudanças mais ou menos profundas nas percepções e sensibilidades religiosas. Em continuidade com o passado estão, por exemplo, os homens e mulheres que, ainda hoje, tomam parte na missa com a atitude própria dos devotos, aproveitando a cerimônia para entrar em contato com as imagens sagradas nos altares e para endereçar-lhes suas homenagens e afetos. Essa gente pouco preocupada em entender a fundo os gestos e palavras do celebrante, gente para quem a missa é antes de tudo um encontro com os santos queridos, não faz mais, hoje em dia, do que manter vivo o secular desencontro entre o povo e o altar, isto é, entre o sentir dos fiéis na igreja e as idéias e emoções que a celebração litúrgica desejaria inspirar.

Por outro lado, pouco parece ter subsistido, nos dias atuais, de toda vasta gama de atitudes em relação à missa ligadas às aflições despertadas pela perspectiva da morte - ou, mais exatamente, à combinação, então popular, entre o temor das chamas do Purgatório e a esperança na conquista da bem aventurança eterna. No Rio de Janeiro de antanho, o uso de "sufrágios de missa" como forma de esconjurar o medo do Além estava na raiz da diligência especializada das irmandades chamadas "das Almas" ou "de São Miguel e almas", por alusão ao arcanjo mais diretamente envolvido com a sorte dos prisioneiros do cárcere purgatorial; o mesmo uso orientava, também, o empenho de pessoas de todas as classes em reservar somas às vezes consideráveis para a promoção de celebrações póstumas em prol da própria alma, geralmente previstas em testamento. O fato de, hoje em dia, aparentarem ser bem mais frouxos os laços entre o oferecimento do santo sacrifício e os cuidados com a salvação só vem demonstrar o quanto, no presente, decresceu em importância na vivência religiosa a preocupação com o destino individual após a morte, como também, em complemento, a solidariedade existente no passado entre os fiéis cá na terra e a população das almas sujeitas, no outro mundo, aos rigores da justiça divina.

O que mais o impressionou em seu estudo?

Impressionou-me, em particular, o fenômeno das grandes missas festivas, celebradas, de tempos em tempos, nas principais igrejas do centro da cidade. Refiro-me, aqui, às grandes missas-espetáculo, de estilo barroco, que contavam com a afluência de multidões de assistentes de todas as condições e que mobilizavam as atenções das gentes em torno da comemoração de certas datas religiosas ou de acontecimentos concernentes à trajetória da real família e do império português.

Nada há, nas principais celebrações litúrgicas do presente, o que se compare em repercussão e importância social à mistura entre cerimônia religiosa, apelo estético e pedagogia política que essas grandes missas do passado punham em cena.

Estudando essas imponentes celebrações comemorativas, pude perceber que, muito mais do que o latim do sacerdote, era a pompa religiosa, com seu repertório de recursos visuais e sonoros, a linguagem universal de que se valiam seus promotores para arrebatar os espíritos dos fiéis. Assim é que, durante o transcurso destas celebrações, seus espectadores e participantes eram instados a reconhecer a música e a decoração dos templos como projeções válidas das majestades divina e humana, sendo levados, neste mesmo movimento, a transferir para Deus e para El Rei toda a admiração despertada pela riqueza do aparato festivo.

Cenários de um tipo especial de sociabilidade religiosa, as missas que, na tese, chamei de barrocas jogavam um papel destacado na própria construção, no imaginário da época, do modelo ideal da sociedade de súditos e católicos que se desejava consolidar nos trópicos. Espelhando, na distribuição dos presentes pelo espaço sagrado, a hierarquia social e o edifício do poder, as missas citadas ensinavam aos que a ela assistiam o significado de ser católico em tempos de Antigo Regime: parte integrante do grêmio comum da Igreja, representado pela assembléia de fiéis reunidos durante a celebração, mas também ocupante de uma ordem social rigidamente estratificada, na qual cada um devia contentar-se com o lugar que lhe era reservado.

Veja também:
Texto que cita reunião e fontes interessadas em preservação de arquivos eclesiásticos

Palavras-chave:
Religião, sociologia, Igreja Católica, Brasil colonial, colônia

 
 

 

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