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Privatizada, com a promoção de missas em casas e fazendas,
cooptada de forma implacável pelo poder político da corte
real portuguesa e promotora de missas-espetáculo com muita música
barroca, a Igreja Católica fornece excelente material de estudo
e compreensão dos arranjos sociais no Brasil se for analisada em
sua rotina durante um período especial da história do país,
quando o Rio de Janeiro tornou-se sede do império português,
com a vinda da corte da Europa. As celebrações religiosas
refletiam com perfeição a desigualdade social e os arranjos
de poder na época. "As missas ensinavam aos que a elas assistiam
o significado de ser católico em tempos de Antigo Regime: parte
integrante do grêmio comum da Igreja, representado pela assembléia
de fiéis reunidos durante a celebração, mas também
ocupante de uma ordem social rigidamente estratificada, na qual cada um
devia contentar-se com o lugar que lhe era reservado." Essa avaliação
foi feita pelo professor Sergio
Chahon, pesquisador do catolicismo leigo no Brasil colonial, que defendeu
tese de doutorado sobre o tema na Universidade de São Paulo (USP),
em setembro.
A aliança entre a celebração
litúrgica e o poder político, ampliada pela presença
da corte portuguesa, em 1808, forneceu um cenário emblemático
do uso da religiosidade como símbolo de afirmação
da força dos governantes e principalmente da figura do rei regente,
dom João, que só se tornaria rei titular com a morte da
mãe, D. Maria I, em 1818. Chahon deu a seguinte entrevista a Prometeu,
por email:
O senhor verificou em seu trabalho uma
repartição entre espaços público e privado
para celebração das missas, que demarcavam posições
sociais. Como eram e o que resta disso hoje?
Para responder a essas perguntas é
necessário, antes de mais nada, tentar entender o que levava os
leigos no Rio de Janeiro do passado a erigir e procurar altares localizados
fora dos limites das matrizes paroquiais e demais templos públicos,
destinados pela Igreja a servir como sedes para as missas e demais cerimônias
da liturgia.
Segundo concluí em minha pesquisa,
essa conduta dos leigos podia ser explicada, em parte, por razões
de fundo propriamente religioso, ligadas, muitas vezes, aos desafios oferecidos
pelas circunstâncias do tempo à vivência cotidiana
do catolicismo. Pensa-se aqui, por exemplo, nos parentes e convidados
do senhor de engenho, os quais, secundados pela escravaria, agregados
e moradores das vizinhanças, vinham assistir à missa dos
domingos na capela particular da fazenda, única alternativa disponível
de espaço sagrado em um raio de diversas léguas. Feita uma
ou outra ressalva, esse gênero de justificativa para a decisão
de muitos leigos de procurar alternativas aos templos públicos
para cumprir com suas obrigações de católicos continua
na ordem do dia ainda hoje, sobretudo, é claro, naquela latitudes
mais remotas onde o estabelecimento da rede paroquial é mais recente
e precário.
Por outro lado, a ensejar também a
repartição entre espaços públicos e privados
para a celebração eucarística estavam razões
algo mais mundanas, relacionadas, de uma forma geral, à posição
superior ocupada pelos agentes da privatização das missas
na hierarquia social da época. O melhor exemplo, neste caso, é
o dos poucos e selecionados proprietários de altares particulares
levantados no recinto doméstico, em cômodos especialmente
adaptados - existentes, em média, em pouco menos de um em cada
100 lares nas freguesias do recôncavo da cidade, segundo levantamento
feito em visita pastoral do ano de 1794. Para estes proprietários,
ordenar a celebração de missas em casa significava o exercício
de um privilégio dos mais cobiçados, capaz de atender a
anseios por status e prestígio social e de satisfazer ao desejo
das famílias aristocráticas de evitar o contato, durante
o ofício divino, com os irmãos em Cristo de raças
ou estratos reputados como inferiores.
Hoje em dia, já não se tem
mais notícias de celebrações executadas regularmente
em altares caseiros. Se alguns deles ainda subsistem, o certo é
que pouco ou nada conservam da importância que lhes era atribuída
enquanto fontes de distinção social para os seus proprietários.
Na verdade, a relativa popularidade alcançada pelas missas domésticas
no passado deve ser interpretada como característica de um tempo,
já longínquo, no qual os discursos, símbolos e ritos
católicos impregnavam intensamente todo o conjunto das representações
e das práticas sociais. Um tempo, portanto, no qual vários
dos membros da chamada "boa sociedade" não hesitavam
em fazer os esforços necessários para, na qualidade de promotores
das mesmas missas, reunirem as condições ideais para operar
a tradicional conjugação entre a afirmação
do elitismo em seus múltiplos aspectos e o recurso às diferentes
formas de exclusivismo religioso então disponíveis - consideremos,
assim, o caso das famílias da aristocracia que mantinham uma ou
mais de suas jovens nos conventos ou recolhimentos femininos, e estaremos
diante de um procedimento similar, sob esse ângulo, ao aqui analisado.
Quais as intenções que tornam-se
transparentes quando se analisam as preferências e atitudes dos
fiéis na época escolhida para o estudo. Elas permanecem
ainda?
Muitos dos estudos dedicados a compreender
o catolicismo leigo em diferentes épocas da história brasileira
têm, a meu ver, se empenhado particularmente em sublinhar as distinções
entre o ideário e as práticas da liturgia e as da devoção,
entre a religião oficial da Igreja dos padres e a religiosidade
do povo fiel. Analisar o envolvimento dos simples leigos com a missa,
a principal celebração litúrgica ontem e hoje, corresponde,
assim, a uma tentativa de unir os dois pólos citados, permitindo
iluminar as interseções entre a chamada "constelação
sacramental" e a devocional.
Com base neste ponto de partida analítico,
e buscando responder às questões propostas, cabe perguntar
o que, no passado e no presente, explica o interesse dos leigos católicos
pelo "santo sacrifício". Ou, por outras palavras: qual
o espaço ocupado pelo mesmo sacrifício nos corações
e nas mentes dos católicos?
Há, em primeiro lugar, um modo de
conceber a missa que a aproxima dos sacramentos, e que define a participação
em seu transcurso como dos principais deveres de um bom católico.
Essa noção da missa como obrigação era o que
impelia, no passado, os proprietários de escravos a providenciar
para que seus plantéis assistissem à cerimônia nas
manhãs dos "dias de guarda", liberando os cativos, nestes
dias, dos trabalhos servis. É a mesma que, atualmente, leva muitos
católicos praticantes a reservar uma hora de cada domingo para
comparecer à celebração eucarística na igreja
mais próxima.
A pesquisa sobre os leigos e as missas em
tempos idos levou-me, contudo, a desvendar outras dimensões da
relação entre ambos, menos superficiais do que a ultimamente
apresentada. Fui, assim, posto diante da enorme massa de fiéis
que, sem acesso ao saber formal e incapaz de assimilar por inteiro as
complexidades da mensagem litúrgica, acabava por atribuir significados
próprios ao que via e escutava durante cada celebração.
Alguns desses significados permanecem atuais
ainda no presente, enquanto outros se têm perdido, como resultado
de mudanças mais ou menos profundas nas percepções
e sensibilidades religiosas. Em continuidade com o passado estão,
por exemplo, os homens e mulheres que, ainda hoje, tomam parte na missa
com a atitude própria dos devotos, aproveitando a cerimônia
para entrar em contato com as imagens sagradas nos altares e para endereçar-lhes
suas homenagens e afetos. Essa gente pouco preocupada em entender a fundo
os gestos e palavras do celebrante, gente para quem a missa é antes
de tudo um encontro com os santos queridos, não faz mais, hoje
em dia, do que manter vivo o secular desencontro entre o povo e o altar,
isto é, entre o sentir dos fiéis na igreja e as idéias
e emoções que a celebração litúrgica
desejaria inspirar.
Por outro lado, pouco parece ter subsistido,
nos dias atuais, de toda vasta gama de atitudes em relação
à missa ligadas às aflições despertadas pela
perspectiva da morte - ou, mais exatamente, à combinação,
então popular, entre o temor das chamas do Purgatório e
a esperança na conquista da bem aventurança eterna. No Rio
de Janeiro de antanho, o uso de "sufrágios de missa"
como forma de esconjurar o medo do Além estava na raiz da diligência
especializada das irmandades chamadas "das Almas" ou "de
São Miguel e almas", por alusão ao arcanjo mais diretamente
envolvido com a sorte dos prisioneiros do cárcere purgatorial;
o mesmo uso orientava, também, o empenho de pessoas de todas as
classes em reservar somas às vezes consideráveis para a
promoção de celebrações póstumas em
prol da própria alma, geralmente previstas em testamento. O fato
de, hoje em dia, aparentarem ser bem mais frouxos os laços entre
o oferecimento do santo sacrifício e os cuidados com a salvação
só vem demonstrar o quanto, no presente, decresceu em importância
na vivência religiosa a preocupação com o destino
individual após a morte, como também, em complemento, a
solidariedade existente no passado entre os fiéis cá na
terra e a população das almas sujeitas, no outro mundo,
aos rigores da justiça divina.
O que mais o impressionou em seu estudo?
Impressionou-me, em particular, o fenômeno
das grandes missas festivas, celebradas, de tempos em tempos, nas principais
igrejas do centro da cidade. Refiro-me, aqui, às grandes missas-espetáculo,
de estilo barroco, que contavam com a afluência de multidões
de assistentes de todas as condições e que mobilizavam as
atenções das gentes em torno da comemoração
de certas datas religiosas ou de acontecimentos concernentes à
trajetória da real família e do império português.
Nada há, nas principais celebrações
litúrgicas do presente, o que se compare em repercussão
e importância social à mistura entre cerimônia religiosa,
apelo estético e pedagogia política que essas grandes missas
do passado punham em cena.
Estudando essas imponentes celebrações
comemorativas, pude perceber que, muito mais do que o latim do sacerdote,
era a pompa religiosa, com seu repertório de recursos visuais e
sonoros, a linguagem universal de que se valiam seus promotores para arrebatar
os espíritos dos fiéis. Assim é que, durante o transcurso
destas celebrações, seus espectadores e participantes eram
instados a reconhecer a música e a decoração dos
templos como projeções válidas das majestades divina
e humana, sendo levados, neste mesmo movimento, a transferir para Deus
e para El Rei toda a admiração despertada pela riqueza do
aparato festivo.
Cenários de um tipo especial de sociabilidade
religiosa, as missas que, na tese, chamei de barrocas jogavam um papel
destacado na própria construção, no imaginário
da época, do modelo ideal da sociedade de súditos e católicos
que se desejava consolidar nos trópicos. Espelhando, na distribuição
dos presentes pelo espaço sagrado, a hierarquia social e o edifício
do poder, as missas citadas ensinavam aos que a ela assistiam o significado
de ser católico em tempos de Antigo Regime: parte integrante do
grêmio comum da Igreja, representado pela assembléia de fiéis
reunidos durante a celebração, mas também ocupante
de uma ordem social rigidamente estratificada, na qual cada um devia contentar-se
com o lugar que lhe era reservado.
Veja também:
Texto
que cita reunião e fontes interessadas em preservação
de arquivos eclesiásticos
Palavras-chave:
Religião, sociologia, Igreja Católica, Brasil colonial,
colônia
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