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02/04/2001
Um arranhão no mito da flexibilização do mercado de trabalho

 
 


É possível que você esteja cansado de ouvir que a flexibilização do mercado de trabalho, que vai aos poucos substituindo o emprego fixo por empregos temporários, de tempo parcial ou até mesmo pelo trabalho informal, é importante para a redução do desemprego e necessário ao mundo moderno e globalizado. Mas há quem diga que a história não é bem essa. A flexibilização está sendo funcional e produzindo resultados, mas não na melhoria dos índices de desemprego, como pregam os entusiastas desse processo. Está servindo para que se rompa com o pacto social que vigorou no emprego até os anos 80 reorientando-se para as próprias empresas a maior parte dos frutos dos ganhos de produtividade da atividade econômica. A flexibilização produziu efeitos danosos na Europa e não é a responsável pela redução do nível de desemprego nos Estados Unidos nos últimos 20 anos. Essa é a avaliação Fernando Augusto Mansor de Mattos, defendida em tese de doutorado no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no final de março.

Não se trata de uma posição confortável, já que desafia a correnteza das análises econômicas simpáticas às mudanças no cenário do emprego no mundo todo, inclusive no Brasil, que aprovou recentemente lei que reduz encargos sociais das empresas contratantes. Mas para sustentá-la Fernando Mattos recorre a um competente levantamento do histórico do emprego e do trânsito do dinheiro na Europa e nos Estados Unidos. Verifica, por exemplo, que a taxa de desemprego sempre havia sido maior nos Estados Unidos do que na Europa até o início da década de 80, quando os EUA optaram por maior flexibilização, mais rapidamente que os europeus. A partir dos anos 80, a situação começou a inverter-se. A taxa de desemprego norte-americana era de 4,9% em 1970 (contra 2,2% na Europa, considerando sempre 15 países da Comunidade Européia), 7,1% em 1980 (5,6% na Europa), 5,61% em 1990 (7,85% na Europa) e 5% em 1999 (10,3% na Europa).

Aparentemente esses número sustentam a tese da flexibilização, mas decompondo esse e outros levantamentos, Mattos afirma que esse processo não ajudou a Europa, que promoveu apenas uma substituição, em termos líquidos, dos empregos anteriores (estáveis, de jornada de trabalho integral, com proteção social etc.) por empregos 'ruins' (temporários e/ou de jornada parcial - e salário menor, por hora trabalhada, do que nos empregos regulares). Diz ainda que o que impulsionou o desemprego no velho continente foi justamente "o esgarçamento desse modelo (de emprego fixo), manifesto na desaceleração do ritmo da redução da jornada de trabalho, no aumento das facilidades para demitir trabalhadores e na redução do ritmo de criação de empregos no setor público" decorrentes da flexibilização. Ele lembra que o regime "social" do emprego conviveu muito bem com altos índices de crescimento econômico na Europa do pós-guerra até o final da década de 70.

O que teria mudado? Um dos componentes para se entender isso é a posição dos Estados Unidos no contexto mundial. Para Mattos, outros fatores (e não a flexibilização do trabalho) reduziram o desemprego nos Estados Unidos, tais como uma estratégia de fortalecimento monetário e de influência em todo o mundo que aquele país vem adotando desde a década de 70: os EUA romperam com a definição de paridades cambiais entre as principais moedas, recuperando a força do dólar como moeda de referência e desfrutando, a partir daí, da instabilidade decorrente. Com isso, colocou sob forte pressão econômica seus aliados europeus. Nos anos 80, os EUA tornaram-se devedores líquidos e passaram a ter crescentes déficits em conta-corrente de seu balanço de pagamentos, usufruindo como nunca de seu poder monetário. Para Mattos, é necessário "introduzir o 'poder' e o 'dinheiro' na análise da evolução das respectivas taxas de desemprego, para podermos nos desvencilhar da armadilha de explicar o desemprego pela suposta 'inflexibilidade' do mercado de trabalho europeu ou, de modo mais geral, pela existência inexorável das 'novas tecnologias da globalização'".

Então quem ganha com a insistência no discurso de que a flexibilização do mercado de trabalho reduz o desemprego? Para Mattos, no contexto mundial "a redução de custos, mais do que nunca, torna-se instrumento da concorrência (entre empresas) e os custos do trabalho passam a ser considerados como prioridade pela nova corrente ideológica hegemônica". Os resultados são apontados em seu estudo por meio dos números de distribuição dos ganhos de produtividade (por variação média anual, em porcentagem) em dois períodos diferentes. No primeiro (1965 a 1981), os ganhos de produtividade iam para o salário real per capita na taxa de 3,6% na Europa e 1,1% nos Estados Unidos. No segundo período (1981 a 1997) percebe-se a grande queda dos ganhos reais de salários: a média anual de destinação dos ganhos de produtividade para salários foi de apenas 1% (Europa) e 0,5% (EUA). Na parte dos ganhos de capital destinada aos lucros ocorreu o inverso: no primeiro período (1965-1981), destinou-se aos lucros uma média anual de -0,6% (Europa) e -0,2% (EUA). No segundo período (1981 a 1997) a destinação foi de 0,7% e 0,6%.

Veja também:
Página da OCDE, onde podem ser vistos dados sobre emprego e desemprego em países desenvolvidos

Palavras-chave:
Economia, Estados Unidos, Europa, globalização. emprego e desemprego, liberalismo, dólar.

 
 

 

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