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Grande imprensa, por motivos diferentes, adotou postura ultraliberal nos governos Sarney e Collor

 
 


A grande imprensa adotou a ideologia ultraliberal e colaborou para que ela se tornasse hegemônica num momento importante para a definição de rumos econômicos do país, entre os anos de 1985 a 1992 (governos Sarney e Collor), marcado principalmente pela abertura do mercado nacional, o início das privatizações e das desregulamentações econômicas. Este é o conteúdo da tese de doutorado de Francisco César Pinto da Fonseca, Divulgadores e vulgarizadores: a grande imprensa e a constituição da hegemonia ultraliberal no Brasil, apresentada em julho ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). O trabalho foi orientado por Maria Helena Capelato. O autor apresenta o trabalho no seguinte artigo:

"Esta tese de doutoramento objetiva examinar o papel da grande imprensa nacional na formação da hegemonia das idéias ultraliberais no Brasil, personificadas numa agenda que enfatiza a precedência da esfera privada (notadamente o mercado) sobre a esfera pública, entre 1985 e 1992. Em termos concretos, esta agenda é marcada pela abertura da economia, pela privatização e pela desregulamentação, entre inúmeros outros pontos.

Através da análise da opinião (sobretudo os editoriais, embora não apenas) dos quatro principais periódicos diários da grande imprensa, isto é, o Jornal do Brasil (JB), O Globo (OG), a Folha de S. Paulo (FSP) e O Estado de S. Paulo (OESP) – aqui considerados aparelhos privados de hegemonia –, procura-se desvendar os posicionamentos adotados perante a referida Agenda, além das estratégias utilizadas para sua consecução.

A grande imprensa é aqui observada a partir de um triplo papel: como aparelho privado de hegemonia, como empresa e como partido do Capital Global. Além disso, observa-se que os periódicos se embuem das éticas (weberianas) da responsabilidade e da convicção. Mas ambas não se ajustam coerentemente, pois, embora os jornais possuam perfis que de certa forma os aproximam de uma e outra, tais éticas por vezes convivem num mesmo jornal, configurando um movimento complexo. Por outro lado, e numa fronteira próxima a ambas as éticas, pode-se definir os órgãos da grande imprensa como perfilhados a uma atuação pragmática ou doutrinária. É importante notar que não se trata de uma correspondência simples e direta entre estas duas características e as referidas éticas, pois, embora possa parecer, ética da responsabilidade não é sinônimo de pragmatismo, assim como ética da convicção não implicar necessariamente doutrinarismo. Afinal, jornais doutrinários – casos do JB e de OESP – podem adotar ao mesmo tempo ambas as éticas; o mesmo pode acontecer com os pragmáticos, casos de OG e da FSP.

Especificamente quanto ao Capital, os jornais assumem posições ainda mais ostensivas, atuando em boa medida como uma espécie de partido político deste setor; procuram, com isso, orientar seus membros. É claro que a tentativa de dirigir a sociedade como um todo, sobretudo os pólos de poder – tanto os institucionais como os derivados na sociedade – é objetivo perene da grande imprensa. Mas, em relação ao Capital, tendo em vista seu interesse em se reproduzir rapidamente, a tarefa de dirigi-lo pareceu ser ainda mais árdua. Nem por isso, contudo, a imprensa deixou de aderir de forma tão pouco crítica à agenda ultraliberal.

Mas as tipologias não se esgotam aqui, pois observamos também, e de forma igualmente perene em praticamente todo o período analisado, como os periódicos simplificam problemas extremamente complexos, vulgarizando-os ao público leitor de forma dicotômica e destituída de vozes alternativas. Com isso, intenta-se sua divulgação – no sentido de se conquistar adeptos – em detrimento, contudo, do aprofundamento do debate e da discussão que, a rigor, inexistem. Afinal, não apenas os grupos considerados adversários são desqualificados como as idéias que professam – em razão de estarem em campos ideológicos opostos ao da grande imprensa – são igualmente desconsideradas e estigmatizadas, o que implica dar-lhes um tratamento hostil, a ponto de considerá-los como inimigos. Tal procedimento implica um espetáculo de autoritarismo. O medo de associar-se às teses à esquerda/nacionalistas/populares fez com que a grande imprensa procurasse se dissociar completamente das bandeiras por estes grupos defendidas – que são tratados como inimigos internos. Além disso, as imagens e representações que elaboraram (os jornais) acerca do "primeiro-mundo" (o qual aparentemente tinham ilusão de que o país pudesse adentrar), contribuíram para que aceitassem os termos da agenda ultraliberal.

Os órgãos da grande imprensa atuam também como empresas, cada vez mais sofisticadas e com interesses múltiplos, inclusive em perspectiva internacional. Importam equipamentos de alta tecnologia para os seus parques gráficos e redações, e vendem serviços informativos e/ou culturais (que também importam). Travam, por vezes, relações conflituosas com seus próprios funcionários, pois o caráter patronal – em termos de representação do Capital e como empregadores – lhes é característica inerente. Daí também podermos compreender a crítica ácida à reserva da informática ao Capital nacional.

Os periódicos requerem, contudo, a legitimação da chamada opinião pública – conceito fugidio e utilizado fundamentalmente para referendar sua própria opinião; daí a sempre suposta concordância entre ambos como forma de justificar a postura antipluralista e antidemocrática que adotam.

Quanto às peculiaridades de cada periódico, a começar pelo JB, este fora definido na Tese como praticante de um liberalismo inconseqüente, pois não levou adiante as premissas liberais, como no caso da crítica à intervenção do Estado. Isto porque fez tantas concessões, embora sempre em nome dos princípios liberais, que estes acabaram sucumbindo, desfigurando-se. Ao JB os fins justificariam (quase que) quaisquer meios, o que fez com que os próprios meios de certa forma se confundissem com os fins, tal o contorcionismo retórico que adotou. Quanto ao outro jornal doutrinário, OESP, sua preocupação com a ordem em virtude da possibilidade de ocorrência da anomia é tão grande que a aproximação com pensamento positivista – por mais paradoxal que possa ser – faz de seu liberalismo algo excessivamente vinculado à reação e ao conservadorismo, tornando sua adesão à doutrina liberal uma postura essencialmente restritiva.

No caso de OG, seu governismo inveterado, que tem como princípio primeiro o apego ao poder do Estado, como forma tanto de usufruir de suas benesses como para – política e ideologicamente – sustentá-lo, e, com isso, o próprio establishment, manteve no período observado seu histórico perfil, embora tivesse aderido à agenda ultraliberal, o que implicou, de certa forma, uma contradição. Mas sua defesa dos governos o torna um jornal oficialista, o que implica também o intuito de tornar os grupos que ocupam o poder institucional dependentes de OG, ou melhor, de todo o Sistema Globo de Comunicação, dada a (poderosa) atuação articulada de todas as empresas que o constituem. Já a historicamente volátil (em termos ideológicos) FSP, que esteve mais próxima da sociedade civil e das demandas democráticas – em razão de seu projeto editorial de fins dos anos 70 que a aproximou dos grupos organizados pró-redemocratização –, leva ao paroxismo as contradições da grande imprensa. Afinal, dado o caráter imanentemente conservador dos órgãos da imprensa – em virtude de sua ligação umbilical ao Capital e às Classes Médias –, sua aproximação às demandas democráticas fez com que tivesse de "servir a dois senhores". Daí suas ambigüidades serem ainda mais complexas que a de seus congêneres, o que pode ser verificado no apoio que se viu impelida a dar às reivindicações sociais pró-democratização – entre as quais as referentes à relação Capital/Trabalho – paralelamente à sua vinculação ao status quo.

Tudo isso implica que, perfis históricos/editoriais/ideológicos à parte, o limite intransponível à democracia para todos os jornais é o conflito de classe. Daí a unanimidade quanto à rejeição radical às greves e a todas as expressões de conflito social. Daí a pregação em prol da harmonia entre as classes e a demanda para que os conflitos se resolvessem de forma "não conflituosa", recorrendo à coerção estatal quando estes assim não ocorressem. Daí também o apoio à minimização do Estado nas relações econômicas conviver paralelamente ao apelo por sua intervenção nos conflitos sociais, justificando inclusive a aplicação da legislação autoritária provinda do regime militar e mesmo a inscrição de "direitos restritivos" no que tange à Ordem Social (na Constituição) e sobretudo ao exercício da greve. A justificação ideológica permeará contudo o discurso, pois sempre em nome de valores universais – tomados de uma forma que se quer inquestionáveis, tais como o "bem comum", a "Nação", o "povo" e a "democracia", dentre outros – a grande imprensa cometeu os mais graves atentados aos valores democráticos.

Conclui-se que, por mecanismos diversos, a grande imprensa contribuiu decisivamente para a introdução da Agenda (ideológica) ultraliberal no país, pois atuou de forma a "divulgar e vulgarizar" as idéias pertinentes a este ideário. Assim o fez através da simplificação deliberada de processos extremamente complexos, casos, entre outros, da avaliação acerca da crise do modelo de desenvolvimento brasileiro assim como das razões que levaram à hegemonia das idéias ultraliberais no plano internacional. Ao vetar o debate - embora através de mecanismos subliminares - não contribuiu para a consolidação da democracia, por mais que seu discurso procurasse afirmar ser este seu papel."

Veja também:
Observatório da imprensa

Palavras-chave:
Mídia, jornais, imprensa, ultraliberalismo

 
 

 

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