08/06/2001
Uma revisão da neurose ocidental: o Islã não é uma ameaça

 
 


A pauta da mídia, com o destaque a ações de grupos radicais como o Taliban no Afeganistão, sinaliza o receio ocidental de que os países islâmicos, com sua população crescente e restrições ao comportamento dos cidadãos, seriam uma ameaça ao mundo democrático ocidental. Esse medo, alimentado por séculos, desde que os islâmicos de fato foram uma ameaça ao homem europeu, e ainda hoje por países geopoliticamente interessados em alianças com os Estados Unidos, não faz sentido. O mundo islâmico está dividido em diversas correntes políticas e ideológicas e abriga muitos problemas sociais e econômicos para representar um perigo aos arranjos ocidentais de poder. Estes problemas, aliás, representam mais um perigo interno às estruturas do próprio mundo islâmico, que apesar disso protagonizou o maior dos movimentos de reafirmação de identidade religiosa do último quarto do século XX.

Apontando para esse cenário a partir das teorias de Samuel Huntington, que em 1993 previu um mundo majoritariamente islãmico, principalmente devido ao crescimento populacional dos seguidores de Maomé, Roberta Aragoni Nogueira Vicenzi revê os conceitos que indicam o islamismo como um movimento ameaçador e avalia suas imbricações com a política mundial. Seu estudo foi defendido em abril na dissertação de mestrado "Percepções sobre a islamização da política" na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) sob orientação de Braz José de Araújo. Ela deu a seguinte entrevista a Prometeu:

Quais os problemas internos enfrentados pelos países islâmicos que impedem sua consolidação e unificação como força política e econômica mundial?

Entendo que os problemas que afligem os países muçulmanos são aqueles enfrentados, no geral, por países que integram o chamado grupo dos subdesenvolvidos, ou seja, uma dura realidade sócio-econômica, com elevados índices demográficos e altas taxas de desemprego, crise de legitimidade dos atuais líderes etc. Esse clima, sem dúvida, favorece muito as vozes de oposição islamistas, as quais no momento não possuem concorrentes que representem desafio de fato e que poderiam conduzir a um cenário mais pluralista.

A quem interessam e quem cultiva os preconceitos, exageros e estereótipos ocidentais com relação ao Islã?

Jogadores políticos com influência regional ameaçada, com valor estratégico questionado e sofrendo pressão interna (questionamento de legitimidade). Por exemplo, Turquia, Arábia Saudita, Israel, Egito e Paquistão poderiam ter interesse na exploração e divulgação do perigo islamista a fim de justificar a manutenção da aliança com os Estados Unidos e suas vantagens.

Já se escreveu bastante sobre a necessidade norte-americana de ter um inimigo. Muitos dizem que, após o fim da União Soviética, esse inimigo seria o Islã. Mas nisso a China não estaria tomando o lugar dos países árabes, apesar de lá não ser tão forte a relação entre religião e política?

Embora o Islã tenha surgido entre os árabes, apesar de seu Profeta ser árabe e de sua Escritura Sagrada ser originariamente árabe, a visualização do "mapa verde" atual e de seus dados populacionais desfaz de imediato a idéia muito comum de que o mundo muçulmano é majoritariamente árabe. A maioria dos árabes são muçulmanos, mas o inverso não é verdadeiro. Logo, deve-se ficar atento para não reduzir o Islã a etnias, a nacionalidades, ou a qualquer movimento político-religioso.

A idéia de que o Ocidente teria perdido, com o fim da bipolaridade, o fator político que lhe assegurava unidade e hegemonia militar e política desde 1945, dando origem à necessidade da construção de um novo inimigo para preencher o suposto vácuo deixado, é, no mínimo, como se sabe, muito polêmica, abraçada por alguns e repudiada ou ignorada por outros.

Seja como for, com base nos primeiros, a lista dos possíveis desafios incluiria em termos econômicos, sobretudo, o Japão e a União Européia e, política e militarmente, França, Inglaterra, Rússia, China e o mundo muçulmano (visto da ótica do radicalismo). Além disso, pode-se notar em algumas listas a proliferação nuclear e o narcoterrorismo.

Dentre os movimentos de reafirmação de identidade religiosa do último quarto do século XX, o islamista parece ser considerado o mais poderoso, pois além de pertencer a um mundo que representou de fato uma ameaça à Europa, propaga-se e ganha adeptos e simpatizantes em um universo que compreende pelo menos 46 países majoritariamente muçulmanos, sem falar das minorias significantes espalhadas pelo globo, compondo, no total, uma população de aproximadamente 1 bilhão e duzentos milhões de pessoas.

Uma população que cresce rapidamente.

De acordo com Huntington, é justamente esse o maior desafio que o Islã representa, o demográfico. Some-se a isso as hostís condições sócio-econômicas com suas filas de jovens desempregados e desiludidos apostando na reafirmação do Corão e da Suna e, no sentido de recuperação da suposta unidade, no retorno às origens, e ter-se-ia uma ameaça em potencial à supremacia do secularismo ocidental e à democracia.

No entanto, muitos analistas confrontam essa posição, alegando que o aumento demográfico parece muito mais perigoso internamente, quando não se consegue evitar miséria, subnutrição, analfabetismo e outras tantas enfermidades sociais, do que no cenário externo, podendo assim, ocasionar muito mais enfraquecimento do que fortalecimento para se constituir em ameaça.

Seja como for, por conta da realidade diversa e complexa inerente ao universo muçulmano e, conseqüentemente, ao movimento islamista, a suspeita de ameaça, principalmente aquela apoiada no argumento da conspiração, perde o sentido. Ainda que se veja o movimento islamista como uma alternativa ideológica e religiosa que tem se fortalecido, transformá-lo em uma ameaça política direta e global pode ser um exagero. Antes de mais nada é preciso perceber a unidade do Islã por um lado e a diversidade de suas múltiplas e complexas manifestações, por outro.

Logo, apesar do meu superficial conhecimento sobre a China e da minha enorme desconfiança da possibilidade de um novo arranjo na estrutura do sistema internacional que não seja unipolar por um longo tempo, acredito que o esforço dos chineses no sentido de modernização de sua economia nos últimos anos já produziu importantes frutos, além de sua presença mais imperativa com relação à política internacional após a queda do muro de Berlim.

Contudo, há interesse da China em manter boas relações com os Estados Unidos para se modernizar e crescer ainda mais. Da mesma forma, aos americanos também interessa e muito a resolução das diferenças com os chineses para enfrentar a competição econômica do Japão e da União Européia.

Você cita em seu trabalho a divisão interna do Islã. Como ela ocorre?

As divisões dentro da Umma se iniciaram com a sucessão do Profeta (Maomé). Rupturas essas originadas, sobretudo, a partir de diferentes conceitos a respeito da natureza da comunidade e de suas lideranças. A mais marcante dessas rupturas começa no final do século VII e divide definitivamente a comunidade muçulmana em seus dois principais ramos: sunitas e xiitas.

A maciça maioria dos muçulmanos é sunita e forma o corpo ortodoxo do Islã, compondo aproximadamente 85% do mundo muçulmano atualmente. Os xiitas formam uma minoria significante que totaliza aproximadamente 15% desse universo.

Os xiitas diferem dos sunitas em crença e prática. Suas diferenças referem-se, principalmente, aos modos de liderança e devoção. Embora o Islã tenha unido vários povos sob a mesma bandeira, as diferenças tradicionais e culturais permaneceram fortes e apareceram no momento de escolher os sucessores do Profeta. A principal diferença entre xiitas e sunitas reside nas doutrinas do imamato e do califado. Para os sunitas o califa é tanto um líder religioso, quanto político, o que não significa que ele seja visto como um sucessor da autoridade religiosa do Profeta. Sua liderança religiosa está relacionada ao seu dever de proteger a religião e a lei islâmicas. Já no caso dos xiitas, o líder não incorpora a liderança temporal. Enquanto o califa é um homem comum que precisa preencher alguns requisitos morais e éticos para ocupar essa posição, o imã xiita, apesar de não ser um profeta, é divinamente inspirado, sem pecado, infalível, a autoridade máxima para interpretar a vontade de Deus. Ele deve ser descendente direto do Profeta e de 'Ali (genro e primo de Muhammad). Infere-se daí, que a legitimidade do imã xiita não está baseada somente na interpretação e proteção da lei divina, mas na sua descendência e inspiração divina.

Para os sunitas, o sucesso do Islã nos tempos áureos é uma recompensa e sinal de aprovação de Deus. Para os xiitas, a história revela opressão e injustiça a uma minoria que deseja restaurar as regras de Deus sob a liderança da autoridade legítima, o imã, desejo frustrado pelos califas sunitas e pelos próprios desacordos entre os xiitas, que conduziram a outras secessões, dando origem aos zayds, ismaelitas e duodécimos, os quais por sua vez, também estão subdivididos em inúmeros subgrupos. Mas as diferenças históricas e religiosas não ocultam os amplos traços de acordo entre xiitas e sunitas. Ambos os grupos assumem o Corão como texto sagrado e Muhammad como o último profeta. Mas os xiitas têm a sua própria versão da lei islâmica e sua própria teologia.

 

Veja também:
Centro de Estudos e Divulgação do Islam
Texto sobre islamismo
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Palavras-chave:
Islamismo, religião e política, terceiro mundo, geopolítica, Islã.

 
 

 

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