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A pauta da mídia, com o destaque a ações de grupos radicais como o Taliban
no Afeganistão, sinaliza o receio ocidental de que os países islâmicos,
com sua população crescente e restrições ao comportamento dos cidadãos,
seriam uma ameaça ao mundo democrático ocidental. Esse medo, alimentado
por séculos, desde que os islâmicos de fato foram uma ameaça ao homem
europeu, e ainda hoje por países geopoliticamente interessados em alianças
com os Estados Unidos, não faz sentido. O mundo islâmico está dividido
em diversas correntes políticas e ideológicas e abriga muitos problemas
sociais e econômicos para representar um perigo aos arranjos ocidentais
de poder. Estes problemas, aliás, representam mais um perigo interno às
estruturas do próprio mundo islâmico, que apesar disso protagonizou o
maior dos movimentos de reafirmação de identidade religiosa do último
quarto do século XX.
Apontando para esse cenário a partir das
teorias de Samuel Huntington, que em 1993 previu um mundo majoritariamente
islãmico, principalmente devido ao crescimento populacional dos seguidores
de Maomé, Roberta Aragoni Nogueira Vicenzi
revê os conceitos que indicam o islamismo como um movimento ameaçador
e avalia suas imbricações com a política mundial. Seu estudo foi defendido
em abril na dissertação de mestrado "Percepções sobre a islamização da
política" na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
de São Paulo (USP) sob orientação de Braz
José de Araújo. Ela deu a seguinte entrevista a Prometeu:
Quais os problemas internos enfrentados
pelos países islâmicos que impedem sua consolidação e unificação como
força política e econômica mundial?
Entendo que os problemas que afligem os países
muçulmanos são aqueles enfrentados, no geral, por países que integram
o chamado grupo dos subdesenvolvidos, ou seja, uma dura realidade sócio-econômica,
com elevados índices demográficos e altas taxas de desemprego, crise de
legitimidade dos atuais líderes etc. Esse clima, sem dúvida, favorece
muito as vozes de oposição islamistas, as quais no momento não possuem
concorrentes que representem desafio de fato e que poderiam conduzir a
um cenário mais pluralista.
A quem interessam e quem cultiva os preconceitos,
exageros e estereótipos ocidentais com relação ao Islã?
Jogadores políticos com influência regional
ameaçada, com valor estratégico questionado e sofrendo pressão interna
(questionamento de legitimidade). Por exemplo, Turquia, Arábia Saudita,
Israel, Egito e Paquistão poderiam ter interesse na exploração e divulgação
do perigo islamista a fim de justificar a manutenção da aliança com os
Estados Unidos e suas vantagens.
Já se escreveu bastante sobre a necessidade
norte-americana de ter um inimigo. Muitos dizem que, após o fim da União
Soviética, esse inimigo seria o Islã. Mas nisso a China não estaria tomando
o lugar dos países árabes, apesar de lá não ser tão forte a relação entre
religião e política?
Embora o Islã tenha surgido entre os árabes,
apesar de seu Profeta ser árabe e de sua Escritura Sagrada ser originariamente
árabe, a visualização do "mapa verde" atual e de seus dados populacionais
desfaz de imediato a idéia muito comum de que o mundo muçulmano é majoritariamente
árabe. A maioria dos árabes são muçulmanos, mas o inverso não é verdadeiro.
Logo, deve-se ficar atento para não reduzir o Islã a etnias, a nacionalidades,
ou a qualquer movimento político-religioso.
A idéia de que o Ocidente teria perdido,
com o fim da bipolaridade, o fator político que lhe assegurava unidade
e hegemonia militar e política desde 1945, dando origem à necessidade
da construção de um novo inimigo para preencher o suposto vácuo deixado,
é, no mínimo, como se sabe, muito polêmica, abraçada por alguns e repudiada
ou ignorada por outros.
Seja como for, com base nos primeiros, a
lista dos possíveis desafios incluiria em termos econômicos, sobretudo,
o Japão e a União Européia e, política e militarmente, França, Inglaterra,
Rússia, China e o mundo muçulmano (visto da ótica do radicalismo). Além
disso, pode-se notar em algumas listas a proliferação nuclear e o narcoterrorismo.
Dentre os movimentos de reafirmação de identidade
religiosa do último quarto do século XX, o islamista parece ser considerado
o mais poderoso, pois além de pertencer a um mundo que representou de
fato uma ameaça à Europa, propaga-se e ganha adeptos e simpatizantes em
um universo que compreende pelo menos 46 países majoritariamente muçulmanos,
sem falar das minorias significantes espalhadas pelo globo, compondo,
no total, uma população de aproximadamente 1 bilhão e duzentos milhões
de pessoas.
Uma população que cresce rapidamente.
De acordo com Huntington, é justamente esse
o maior desafio que o Islã representa, o demográfico. Some-se a isso as
hostís condições sócio-econômicas com suas filas de jovens desempregados
e desiludidos apostando na reafirmação do Corão e da Suna e, no sentido
de recuperação da suposta unidade, no retorno às origens, e ter-se-ia
uma ameaça em potencial à supremacia do secularismo ocidental e à democracia.
No entanto, muitos analistas confrontam essa
posição, alegando que o aumento demográfico parece muito mais perigoso
internamente, quando não se consegue evitar miséria, subnutrição, analfabetismo
e outras tantas enfermidades sociais, do que no cenário externo, podendo
assim, ocasionar muito mais enfraquecimento do que fortalecimento para
se constituir em ameaça.
Seja como for, por conta da realidade diversa
e complexa inerente ao universo muçulmano e, conseqüentemente, ao movimento
islamista, a suspeita de ameaça, principalmente aquela apoiada no argumento
da conspiração, perde o sentido. Ainda que se veja o movimento islamista
como uma alternativa ideológica e religiosa que tem se fortalecido, transformá-lo
em uma ameaça política direta e global pode ser um exagero. Antes de mais
nada é preciso perceber a unidade do Islã por um lado e a diversidade
de suas múltiplas e complexas manifestações, por outro.
Logo, apesar do meu superficial conhecimento
sobre a China e da minha enorme desconfiança da possibilidade de um novo
arranjo na estrutura do sistema internacional que não seja unipolar por
um longo tempo, acredito que o esforço dos chineses no sentido de modernização
de sua economia nos últimos anos já produziu importantes frutos, além
de sua presença mais imperativa com relação à política internacional após
a queda do muro de Berlim.
Contudo, há interesse da China em manter
boas relações com os Estados Unidos para se modernizar e crescer ainda
mais. Da mesma forma, aos americanos também interessa e muito a resolução
das diferenças com os chineses para enfrentar a competição econômica do
Japão e da União Européia.
Você cita em seu trabalho a divisão interna
do Islã. Como ela ocorre?
As divisões dentro da Umma se iniciaram com
a sucessão do Profeta (Maomé). Rupturas essas originadas, sobretudo, a
partir de diferentes conceitos a respeito da natureza da comunidade e
de suas lideranças. A mais marcante dessas rupturas começa no final do
século VII e divide definitivamente a comunidade muçulmana em seus dois
principais ramos: sunitas e xiitas.
A maciça maioria dos muçulmanos é sunita
e forma o corpo ortodoxo do Islã, compondo aproximadamente 85% do mundo
muçulmano atualmente. Os xiitas formam uma minoria significante que totaliza
aproximadamente 15% desse universo.
Os xiitas diferem dos sunitas em crença e
prática. Suas diferenças referem-se, principalmente, aos modos de liderança
e devoção. Embora o Islã tenha unido vários povos sob a mesma bandeira,
as diferenças tradicionais e culturais permaneceram fortes e apareceram
no momento de escolher os sucessores do Profeta. A principal diferença
entre xiitas e sunitas reside nas doutrinas do imamato e do califado.
Para os sunitas o califa é tanto um líder religioso, quanto político,
o que não significa que ele seja visto como um sucessor da autoridade
religiosa do Profeta. Sua liderança religiosa está relacionada ao seu
dever de proteger a religião e a lei islâmicas. Já no caso dos xiitas,
o líder não incorpora a liderança temporal. Enquanto o califa é um homem
comum que precisa preencher alguns requisitos morais e éticos para ocupar
essa posição, o imã xiita, apesar de não ser um profeta, é divinamente
inspirado, sem pecado, infalível, a autoridade máxima para interpretar
a vontade de Deus. Ele deve ser descendente direto do Profeta e de 'Ali
(genro e primo de Muhammad). Infere-se daí, que a legitimidade do imã
xiita não está baseada somente na interpretação e proteção da lei divina,
mas na sua descendência e inspiração divina.
Para os sunitas, o sucesso do Islã nos tempos
áureos é uma recompensa e sinal de aprovação de Deus. Para os xiitas,
a história revela opressão e injustiça a uma minoria que deseja restaurar
as regras de Deus sob a liderança da autoridade legítima, o imã, desejo
frustrado pelos califas sunitas e pelos próprios desacordos entre os xiitas,
que conduziram a outras secessões, dando origem aos zayds, ismaelitas
e duodécimos, os quais por sua vez, também estão subdivididos em inúmeros
subgrupos. Mas as diferenças históricas e religiosas não ocultam os amplos
traços de acordo entre xiitas e sunitas. Ambos os grupos assumem o Corão
como texto sagrado e Muhammad como o último profeta. Mas os xiitas têm
a sua própria versão da lei islâmica e sua própria teologia.
Veja também:
Centro de Estudos e Divulgação
do Islam
Texto
sobre islamismo
Links sobre o Islã
Palavras-chave:
Islamismo, religião e política, terceiro mundo, geopolítica,
Islã.
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