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Pesquisa detecta cinismo cívico da elite brasileira

 
 

Quanto maior o nível cultural e a consciência política do cidadão, maior é o seu cinismo cívico. Esse é o resultado de uma pesquisa realizada por Fábio Wanderley Reis, professor emérito da UFMG, e Mônica Mata Machado de Castro. Foram ouvidas 2.160 pessoas de várias classes sociais e níveis culturais e verificou-se que, quanto maior o "civismo" demonstrado pelos entrevistados, mais prontos eles se mostram a trocar sua opção cívica por outra egoísta, em que levarão vantagem pessoal. Entre pessoas com o que os autores chamam de sofisticação política "muito alta", 43,5% mostraram-se dispostos a trocar uma posição cidadã por uma outra em que levam vantagem pessoal. Já entre os que têm sofisticação política "muito baixa" só 20,4% demonstraram esse cinismo. O estudo foi publicado no último número da Revista Brasileira de Ciências Sociais.

Os pesquisadores trabalharam com um "índice de sofisticação política", atribuído aos entrevistados de acordo com suas respostas a um questionário sobre seu interesse por política e suas opiniões a respeito de temas como parlamentarismo, pacto social, partidos políticos, além de conhecimentos sobre questões como "o que significa FGTS", "o que foi o Plano Cruzado" e "o que quer dizer 'marajá'". Concluiu-se, por exemplo, que 67,4% dos universitários tinham índice de sofisticação política muito alto, enquanto 56,1% dos que tinham estudado até o primário incompleto tinham índice muito baixo.

Esses dados foram cruzados com as respostas dadas a duas perguntas: uma avaliava a disposição dos entrevistados em participar de um pacto social em que todos aceitavam ganhar pequenos aumentos salariais para beneficiar os planos de um governo honesto e correto. A Segunda pergunta, feita a quem aceitasse o pacto social, era se ele manteria essa posição mesmo que a maioria da população preferisse ganhos maiores e imediatos, atrapalhando os planos do governo. Verificou-se, então, que a transferência para o grupo dos que querem "levar vantagem" apesar da posição politicamente correta do início, aumentava de acordo com a maior escolaridade e sofisticação política de cada um.

A formulação exata das perguntas era a seguinte:
A. "Digamos que o governo estivesse fazendo tudo o que é preciso para tirar o país da crise em que ele está e fosse necessário discutir a questão dos salários, lucros ou ganhos de cada um. Neste caso, o Sr.: 1. se contentaria com pequenos aumentos de salário (ou outros ganhos pessoais) se isso fosse ajudar o esforço do governo; ou 2. preferiria maiores aumentos de salário (ou outros ganhos), mesmo atrapalhando os planos do governo."

B. "(Se escolheu a alternativa 1 na anterior) Digamos que a maioria preferisse ganhos ou aumentos imediatos e que, em conseqüência, o esforço do governo para tirar o país da crise, mesmo sério e bem-intencionado, tivesse poucas chances de dar certo. Neste caso, o Sr.: 1. continuaria se contentando com pequenos aumentos de salário (ou outros ganhos) para ajudar o esforço do governo; ou 2. preferiria maiores aumentos de salário (ou outros ganhos), mesmo ajudando a atrapalhar os planos do governo."

Num dos quadros mais interessantes do estudo pode-se ver que o número dos que se deslocam do "civismo" da primeira questão, aceitando o "cinismo" proposto na segunda, foi de 43,5% entre os entrevistados mais categorizados (universitários com sofisticação política muito alta) e vai caindo para 29,4% (entre os que têm colegial e sofisticação política alta), 29,3% (colegial com sofisticação política média), 25,9% (primário completo com sofisticação política baixa) e 20,4% (primário incompleto com sofisticação política muito baixa).

Veja também:
UFMG
Scielo

Palavras-chave:
Sociologia, elites, civismo.

 
 

 

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