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Alguns mitos envolvem a cooperação internacional fornecendo munição para
discursos empenhados na globalização, como o de grupos neoliberais. Um
desses mitos é o de que a cooperação entre países proporciona ganhos iguais
a todos. Na verdade, a assimetria de poder entre os países faz com que
eles nunca sejam equânimes. Outro mito é o de que todos os países que
formam um grupo estão sujeitos às mesmas regras. Também não é verdade,
e novamente a estatura de um país se sobrepõe à de outro quanto mais informais
forem as regras do grupo. Por isso o Brasil se contradiz ao defender mais
regras em fóruns como OEA e OMC e menos regras em outros onde é mais forte,
como o Mercosul e o Grupo do Rio.
Esse é cenário onde se desenvolve o estudo
de Bruno Borges, mestre em
Relações Internacionais pelo IRI/PUC-Rio,
defendido como dissertacao de mestrado em Relações Internacionais,
em abril, na PUC-Rio, intitulada "Leveza sob pressão: um estudo sobre
poder, instituições e o Grupo do Rio", orientada por Leticia Pinheiro.
Borges enfocou a geopolítica do continente americano e as experiências
de grupos de cooperação internacional que o envolvem. Ele deu a seguinte
entrevista a Prometeu:
Que fatores (internos e externos à América
Latina) determinaram a ineficiência do Grupo do Rio, formado em 1986 para
contrabalançar a influência norte-americana?
Basicamente, há dois fatores: um externo
e um interno. O fator externo diz respeito ao fim da Guerra Fria. Com
o fim do conflito bipolar, a margem de manobra dos países periféricos
diminuiu tremendamente junto com o fim do chamado "bloco do Terceiro Mundo".
A prioridade passava a estar voltada para temas econômicos, "esvaziando"
a discussão política. Para os países latino-americanos a mudança foi dramática:
liberalização da economia e adoção do modelo econômico neoliberal em detrimento
do modelo de substituição de importações. Esta mudança no sistema internacional
(agora unipolar, pelo menos para a América Latina), significou mudanças
internas nos rumos das respectivas políticas externas. Os "três grandes"
(Argentina, Brasil e México) adotaram estratégias diferenciadas: o México
- o primeiro a liberalizar sua economia - uniu-se aos EUA através do NAFTA,
reconhecendo assim a dependência de sua economia aos norte-americanos.
A Argentina oscilou durante todos os anos 90 numa "não-escolha": ao mesmo
tempo em que mantinha "relações carnais" com os EUA, procurava seguir
com a proposta do Mercosul sem muita convicção. Quanto ao Brasil, o mantra
do Mercosul ocupou o Itamaraty durante toda a década de 90, apesar do
paradoxo: o Brasil apóia o Mercosul contanto que este apresente uma baixíssima
institucionalização. Como o Brasil tem maior poder no bloco, a falta de
regras o favorece. No entanto, quanto menos institucionalizado é o Mercosul
(falta de uma moeda única, tribunais conjuntos ou parlamentos regionais),
menos alcance ele pode ter nas negociações internacionais. Podemos ver
de maneira clara que uma posição "latino-americana" dos anos 80 foi abandonada
em função das estratégias próprias de política externa nos anos 90.
Você afirma em seu estudo que a "informalidade"
do grupo beneficiou Brasil, Argentina e México. Por que?
Há duas maneira como a "informalidade" beneficiou
os três países. A primeira fica clara se nós entendermos como os países
poderosos se comportam dentro de instituições internacionais. Quando os
países são os mais poderosos dentro do Grupo, a criação de regras os desfavorece,
já que perdem parte de sua liberdade de ação. Portanto, dentro das instituições
há um eterno conflito: os mais fracos clamam por mais regras e os mais
fortes por menos. O caso do Brasil é exemplar, como mostra a Prof. Leticia
Pinheiro do IRI/PUC-Rio: em foros onde o Brasil é o país "fraco" - a ONU,
a OMC, por exemplo - está constantemente defendendo a maior institucionalização
e a maior criação de regras. Em contraste, em foros onde tem o maior poder,
age como país "forte" - Grupo do Rio, Mercosul - evitando a criação de
regras que o tolham em sua ação. No Grupo do Rio, os três grandes sempre
favoreceram a baixa institucionalização do arranjo. A segunda maneira
como a baixa institucionalização influenciou os três países foi a facilidade
com que se desvencilharam do Grupo. Quando mudaram suas políticas externas
nos anos 90, nada os "prendia" a manter o rumo anterior do Grupo do Rio,
dada a baixa institucionalização do mesmo. Neste sentido, um dos fatores
de "vantagem" inicial do Grupo tornou-se uma "desvantagem" para sua atuação
nos anos 90.
Os Estados Unidos atuaram de alguma maneira
contra o GRIO?
Os Estados Unidos sempre atuaram de maneira
contrária ao Grupo do Rio. Apesar de ter sido criado em 1986, o Grupo
do Rio só foi mencionado pela primeira vez em um documento oficial do
governo norte-americano, em 1994, já durante o governo Bill Clinton, que
tratava da ligação entre União Européia e o GRIO. É importante lembrar
no entanto que isto não é absolutamente novo. Os EUA sempre negociaram
com os países latino-americanos bilateralmente, nunca multilateralmente.
Mesmo dentro da OEA, que é o foro para isso, os EUA sempre tiveram facilidade
para determinar a agenda e influenciar as votações, cooptando os votos
do Caribe. Como país hegemônico, este é o papel dos EUA: desestimular
qualquer tentativa de formação de blocos ou arranjos dos países menores.
Que interesses comuns ainda são possíveis
detectar entre países da América Latina?
Muito poucos. Apesar dos problemas ainda
serem muito similares, especialmente a péssima distribuição de renda e
a desigualdade social e racial, como já foi dito as estratégias se individualizaram
nos anos 90. Na década de oitenta era mais fácil identificar temas comuns
na região - podemos citar a crise da dívida externa, a redemocratização
dos países e o envolvimento dos Estados Unidos na região centro-americana
como grandes temas que dominaram o período. É difícil falar em interesses
comuns nos anos 90 sem articulação política.
Como você avalia o cenário do continente
americano com a perspectiva do surgimento da ALCA?
Apesar de ser extremamente cético com relação
aos pontos positivos que a implantação da ALCA poderá trazer, prefiro
me concentrar na capacidade dos países latino-americanos para negociar.
Neste momento, a América Latina está dividida por sua própria assimetria
de poder interna: para alguns países como o Chile ou os países centro-americanos,
por exemplo, a idéia da ALCA é uma boa idéia. Países que são basicamente
exportadores de matéria prima têm muito a ganhar com a abertura dos mercados.
Os países que têm maior poder dentro da região saem prejudicados por terem
que renunciar a um projeto de autonomia industrial, assim como já o fez
o México - a idéia é vender suco de laranja em troca de microchips Intel.
Sem contar a divisão de poder entre os países, ainda há nas questões econômicas
uma clara divisão de setores dentro de cada país o que dificulta ainda
mais a negociação: setores sindicais e empresariais podem ter diferentes
visões de seus ganhos ou perdas com o processo de abertura. Esta assimetria
dentro da região e de seus país junto com a falta do que chamo de uma
"estratégia latino-americana" dificulta demais a negociação. Provavelmente,
não será negociada, será imposta.
Você afirma no estudo que a cooperação
internacional não é benéfica por si mesma. Por que?
Acho que a resposta anterior fala por si
mesma. Os ganhos da cooperação internacional são sempre muito diferenciados
tanto dos países como dentro deles. Temos sempre uma idéia um pouco idílica
de que cooperar é bom automaticamente. O que quero dizer é que tudo tem
um preço: a cooperação ou a não-cooperação. Numa democracia, cabe à população
definir o preço que está disposta a pagar, sem hipocrisias. Quase nunca
há ganhos iguais num processo de cooperação internacional.
Veja também:
Site sobre o Grupo do
Rio mantido pelo Itamaraty
Palavras-chave:
Geopolítica, relações internacionais, América
Latina, Estados Unidos, Alca, Mercosul.
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