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14/05/2004
Da Redação
Engana-se quem pensa que ciência e religião são atividades
humanas totalmente antagônicas. Há um espaço nas relações
humanas em que ambas parecem ser a mesma coisa. Essa mistura pode ser
vista em diversos ambientes. Por exemplo, no discurso das mídias
sobre medicina e religião, onde surgem vez ou outra referências
a "terapias médicas milagrosas" ou a "fé
salvadora". Na publicidade médica também podem ser
encontradas frases que celebram o "dom divino" da cura. Religiosos,
por sua vez, também se organizam em doutrinas e atividades voltadas
especificamente à "cura" de seus fiéis.
Estes ambientes em que cura, ciência e fé se encontram são
analisados pela pesquisa feita por Éden
Costa, numa dissertação de mestrado pelo Departamento
de Antropologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), orientada
pelo Prof. Dr. Raymundo Heraldo Maués. Costa avaliou o contexto
nacional e mundial no que se refere à santificação
(não-reconhecida pela Igreja) de médicos que, quando em
vida, tiveram grande reconhecimento popular. Foca depois no caso do culto
ao médico Camilo Salgado, falecido em1938, mas que continua atraindo
milhares de "fiéis" a seu túmulo em Belém
(Pará).
A seguir a entrevista do pesquisador:
Prometeu: Descreva exatamente como é o culto a Camilo
Salgado, que tipo de coisa os fiéis deixam no túmulo e por
que deixam. Enfim, como se manifesta a fé nele?
Éden - O culto a este médico guarda semelhanças
com os outros santos populares de que falo na dissertação,
ou seja, a maior incidência de fiéis se dá na segunda-feira,
dia dedicado a cultuar os mortos. As pessoas rezam por suas almas e, ao
mesmo tempo, fazem pedidos para si e para seus semelhantes. A sepultura
de Camilo Salgado é de fato a mais freqüentada pelos fiéis
em relação a outros "santuários" do cemitério.
Observei que o número de pessoas que entram no campo santo e dão
pelo menos uma paradinha no túmulo para fazer um pedido de cura
ou proteção é muito grande. Sobretudo se aquele ou
aquela que pediu julga que foi atendido pelo médico-santo; neste
caso, a fidelidade se torna ainda mais intensa, expressa na devoção,
ou seja, na "obrigação" de ir ao local semanalmente
(ou uma vez por mês, ou ainda no Dia de Finados) para colocar flores,
acender velas, fazer nós nas fitas que envolvem o túmulo
(talvez uma influência das religiões afro-brasileiras) ou
mesmo mandar confeccionar placas de mármore ou madeira para colocar
no local em sinal de eterno agradecimento. Tal atitude diz respeito a
uma relação de reciprocidade, em outras palavras uma promessa
feita e "paga" de alguma forma. Normalmente, os devotos dizem
que as flores são para homenagear o santo, assim como as velas
que normalmente são direcionadas aos mortos simbolicamente como
sinal de iluminação, mas que no caso desse médico
são mais referidas como reverência, pois acredita-se que
Camilo Salgado já está em um nível bastante elevado
deste Além, não precisando de ajuda para sua salvação,
como ocorre com as almas do Purgatório.
Por seu turno, datas como o seu aniversário (22 de maio) ou o dia
de sua morte (03 de março) ou o Dia do Médico (18 de outubro)
não são muito valorizadas (muitas vezes por desconhecimento),
ficando mesmo a segunda-feira e o Dia de Finados como momentos principais
do culto a Camilo Salgado.
A visitação ao túmulo desse médico-santo pode
dar-se de forma individual ou mesmo em grupo, como é o caso de
um liderado por uma mulher que, acompanhada de mais de dez pessoas, faz
uma peregrinação por vários túmulos de mortos
considerados almas santificadas - religiosos, crianças, muitos
médicos - e capazes de fazer inúmeros milagres. O ritual
começa e termina junto à sepultura de Camilo Salgado, pelo
qual todos dizem ter uma forte devoção.
Apesar de existirem outros lugares - como praças, clínicas
- com o nome desse médico, o lugar que o representa e, digamos,
perpetua a sua memória é mesmo a sepultura, com a sua efígie
dourada, objetos tocados pelos fiéis como se eles acreditassem
que dali emanariam poderes taumatúrgicos.
Prometeu: Você aponta uma grande área de intersecção
entre medicina e religião na área na qual se situam os santos
populares e principalmente aqueles com o perfil de Camilo Salgado. Porque
se dá essa intersecção?
Éden - Na minha forma de ver, são as instituições
religiosas e as pessoas que fazem essa associação, pois
os santos, sejam eles oficiais ou aqueles que a própria população
"canoniza", não apenas são invocados para se conseguir
um emprego, uma casa, a sorte no amor, a aprovação nos estudos,
mas também nas situações em que as pessoas adoecem
e, por conta da doença, da dor, o medo da inanição
e da morte se instalam. Acredito que uma das nossas principais preocupações
é de fato com a saúde, pois sem ela, não podemos
trabalhar, nos divertir, amar, enfim... Dessa forma, os santos também
são "médicos" e, tomando como referência
o antropólogo François Laplantine, na obra Antropologia
da doença, pode-se dizer que o discurso religioso (e não
me atenho aqui apenas ao católico, mas também ao evangélico,
espírita, umbandista etc) também é um discurso medicinal,
já que exorta as pessoas a buscar a religião para se curar
de suas doenças, e isso se expressa nas sessões de cura
que existem nas várias tendências religiosas que conhecemos.
Agora, no caso específico de minha pesquisa, onde religião
e "medicina" se relacionam, chamo a atenção para
o caso de Camilo Salgado. Este exerceu a medicina quando era vivo, e isso
é sempre referido pelos seus devotos, que justificam sua procura
no cemitério justamente por este fato. Isso quer dizer que embora
seja considerado um santo, ou um "espírito de luz" (termo
usado tanto por quem se diz católico, quanto pelos que se denominam
espíritas) o fato de ter sido médico parece ser o fator
decisivo que o associa às curas, aos milagres e isso sugere uma
continuidade, pois os meus interlocutores costumavam dizer que achavam
que ele continua exercendo sua profissão, ou seja, ele não
foi médico, ele "é" médico. A cura é,
segundo os devotos e devotas, a especialidade do santo. Aliás,
o ter exercido a medicina e ser cultuado como um santo foi o elemento
central que me levou à escolha de Camilo Salgado, porque ele parece
ser um referencial que permite pensar nessa intersecção,
quer dizer, ele é um santo e ao mesmo tempo se vale de sua "ciência"
para curar seus devotos-pacientes, que vão ao seu "consultório",
à sua "clínica" para se consultar, como me disse
um devoto. Por outro lado, o percurso da cura mostra as pessoas que são
devotas deste médico indo também aos médicos vivos
para se tratar, mas costumeiramente declarando sua fé maior no
médico-santo, o que sugere simbolicamente uma crença na
medicina científica, já que como eu disse antes, sempre
há a referência de Camilo Salgado como médico.
Prometeu: Esse ambiente em que medicina e religião se
misturam tem mudado seu perfil ou continua o mesmo? Há algum viés
social neste recorte, ou seja, pessoas abonadas fazem essa intersecção
de modo diferente dos pobres, ou a posição social não
interfere?
Éden - Para responder com maior segurança essa sua
pergunta, talvez fosse necessária uma pesquisa mais aprofundada,
mas como historiador e antropólogo, acredito que essa relação
foi construída historicamente ao longo das épocas e sem
dúvidas é preciso levar em consideração o
contexto histórico e cultural em que ela ocorre. Não acredito
em uma explicação que defina essa intersecção
medicina-religião como elemento inerente à própria
natureza humana. Os diversos povos do mundo, muito antes da ascensão
da medicina moderna, tiveram suas formas de "medicina" e aqueles
que a praticavam eram cercados de uma aura mítica e considerados
seres sagrados, mas ainda hoje temos o pajé, uma espécie
de "médico" que atua com o concurso de seres do outro
mundo e goza de uma ampla aceitação em muitos lugares.
Em relação ao culto a Camilo Salgado, passados sessenta
e seis anos após a sua morte, e tomando como referência a
pesquisa em periódicos desde 1938, não identifico muitas
mudanças na estrutura do culto e da devoção. Penso
que os diversos relatos de milagres alcançados pelas pessoas, as
placas de agradecimento e a publicização desses feitos atribuídos
ao médico-santo veiculados nos jornais e no próprio cemitério
e que vão sendo incorporados à sua biografia contribuem
para manter essa devoção de pé ao longo desse tempo
todo. Nesse ponto, acredito que a idéia de "longa duração"
desenvolvida por Fernand Braudel, que consistiria na permanência
de determinadas estruturas de pensamento, crenças, mentalidades,
que mesmo com as mudanças históricas continuam arraigadas
em uma determinada sociedade, se adaptando ao momento histórico,
se aplica ao culto aos santos populares e, no caso, a Camilo Salgado,
pois desde a época de sua morte essa visitação ao
seu túmulo e os pedidos de cura são verificados. Daí
o porque do título da dissertação: "Médico
de ontem e de hoje..."
Em relação à questão da condição
social dos devotos e devotas, acho muito simplista uma explicação
para o culto que esteja vinculada ao ter ou não melhores condições
de vida e de atendimento médico, ou seja, centrar em demasia a
explicação por um fator econômico. Ora, no Brasil
(e talvez em outras partes do mundo) esse constante contato com o "outro
mundo" faz parte da cultura religiosa e isso, me parece, não
pode ser reduzido a uma questão de classe. Embora alguns autores
que se debruçaram sobre o fenômeno dos santos populares tenham
sugerido que são as classes mais pobres que se beneficiam desses
santos, os dados de minha pesquisa não me permitem concordar inteiramente
com esse ponto de vista. Muitos de meus interlocutores eram pessoas que
vinham da classe média ou alta, possuindo curso superior e planos
de saúde, mas mesmo assim tinham em Camilo Salgado uma referência
de cura. Portanto, mesmo não desconsiderando a questão econômica,
acho que ela não deve ser a explicação última
para o culto e a devoção.
Prometeu: É possível alguma mensuração
no sentido de se saber se haveria hoje mais ou menos santos populares
do que em outras épocas? Ou o quanto é freqüente a
intersecção medicina-religião?
Éden - Acho que para essas questões seria necessário
um estudo mais amplo, que envolvesse pesquisadores de muitos lugares,
mas eu não encontrei muitos dados relativos a estes aspectos. Talvez
eu possa arriscar e dizer que, pelo menos na América Latina hoje
os santos populares são muito numerosos, muitos esperando uma atenção
da Igreja para, quem sabe, se tornarem santos oficiais. Só para
dar alguns exemplos, no Brasil temos Odetinha, Isildinha, no Rio de Janeiro;
no Nordeste, mais precisamente Rio Grande do Norte, os bandidos-santos
Jararaca e Baracho; em São Paulo, médicos como o Doutor
Silveira Bueno; no Rio Grande do Sul, três santas que em vida foram
prostitutas; no México, o homicida Victor Apaza; na Venezuela,
Maria Lionza, e Doutor José Gregório Hernandez; ou o Doutor
Moreno Cañas, na Costa Rica; as crianças Pedrito Halado,
a Difunta Corrêa, na Argentina, enfim...
Prometeu: Os médicos têm consciência dessa
intersecção medicina-religião? E os religiosos, têm?
Quem se beneficia mais dessa intersecção: os médicos
ou os religiosos?
Éden - Considero essa questão bastante polêmica,
pois entrevistei dois médicos ligados por parentesco a Camilo Salgado
e eles não me pareceram admitir isso de modo explícito.
No entanto, embora não admitam isso, o discurso da medicina, além
dos seus rituais, não deixam de conter elementos do discurso religioso.
O já citado antropólogo François Laplantine defende
a tese, que eu subscrevo, de que a medicina moderna, ao buscar a "salvação"
do ser humano, ao prometer erradicar as doenças que afligem os
homens, a extirpar os males da sociedade, se aproxima da religião
e seu discurso de salvação, porque faz promessas de salvar
o homem ainda nessa vida, e não em uma vida futura. Não
obstante, a medicina despertaria nas pessoas a fé em seus procedimentos
de cura e obviamente naquele que a representa: o médico.
Em Belém do Pará, encontrei também um elemento central
na relação medicina-religião: a questão do
exercício da medicina como uma "missão", um "sacerdócio",
qualidades aliás que são atribuídas pelos próprios
médicos ao falecido Camilo Salgado, e que se encontram na biografia
deste afixada no prédio da outrora Faculdade de Medicina do Pará,
fundada em 1919 com a ajuda de Camilo Salgado. Atributos esses que parecem
estar ali para relembrar aos futuros médicos a verdadeira missão
religiosa que recebem, ao lidar com a vida (e a morte) das pessoas. Voltando
a Laplantine, ele nos diz que mesmo dentro da ciência médica,
é freqüente a história do médico com "coração
de ouro", capaz de realizar verdadeiros milagres curando as pessoas,
seja operando, seja receitando remédios. Essa é uma idéia
que se aplica ao Dr. Camilo Salgado, cujos feitos milagrosos já
em vida são relatados nos jornais de épocas anteriores,
operando pessoas e salvando-as onde outros médicos não conseguiram.
Historicamente, muitos santos oficiais da Igreja parecem ter sido médicos
em sua época, como por exemplo, São Lucas, Cosme e Damião,
São Braz, Camilo de Lélis, dentre outros. Daí porque
acredito que a "canonização" de Camilo Salgado
e outros médicos tem relação com essa tradição.
Portanto, mesmo não admitindo isso de forma tão aberta,
acho que os médicos têm consciência dessa aura de "milagreiros"
que paira sobre eles. Por ocasião da passagem do Dia do Médico
em 2003, vi um out-door em uma das ruas de minha cidade que dizia
o seguinte: "Dia do Médico, em cada profissional o Dom divino".
Pode-se ver assim, a constatação, que talvez emane da própria
classe médica, de que a medicina tem algo de divino já que
"nenhuma missão mais humana na prática do dia-a-dia,
nenhuma mais divina, na obtenção da cura" (Sérgio
Martins Pandolfo - médico e escritor). Assim, parece que ciência
e fé se relacionam aqui.
No que se refere aos religiosos, eu já havia dito acima que seu
discurso de cura não deixa de ser também um discurso "médico",
embora sua forma de atuação seja diferente e invoque o poder
de Deus, de Jesus, dos santos, dos espíritos etc, (é claro
que os médicos também devem invocar seus protetores). As
várias religiões têm uma preocupação
com a questão saúde-doença, e por isso organizam
sessões para curar seus doentes. Não deixa de ser também
uma relação religião-medicina, embora o poder de
cura não venha de médicos (à exceção
talvez do espiritismo kardecista), mas sobretudo de Deus. Em relação
a Camilo Salgado, volto a afirmar, temos essa intersecção
bem mais próxima, porque em última instância é
ele que tem a permissão de Deus para curar, sobretudo por conta
de sua profissão.
Prometeu: Como você avalia o fato de a população
eleger seus próprios santos em total desconsideração
pela liturgia "oficial"?
Éden - Historiadores e antropólogos, tanto em nível
nacional quanto em minha cidade, têm mostrado que, em que pesem
os conflitos entre a religião institucionalizada e as manifestações
práticas da religiosidade, existe também o diálogo
entre elas. Aliás, desde a antigüidade, a nascente igreja
católica já convivia com o culto que os cristãos
prestavam àqueles que eram perseguidos e mortos, e que se tornavam
mártires. O historiador Peter Brown, em Le cult des saints,
mostra que o culto aos santos teve início justamente como um culto
mortuário, já que as pessoas iam visitar estas pessoas mortas
que, por sua conduta exemplar e também por seus sofrimentos eram
canonizados inicialmente pela população. No Brasil, desde
a época colonial, a Igreja católica teve que conviver com
formas de religiosidade oriundas dos grupos indígenas e das religiões
africanas, num interessante sincretismo que perdura até hoje, e
que agregou elementos do espiritismo kardecista. É essa plasticidade
da religião que permite a criação do que eu chamo
de "santos alternativos", que curam, ajudam a passar no vestibular
e são incorporados espontaneamente à já legitimada
hierarquia de santos oficiais, sendo igualmente eficazes.
Por outro lado, características normalmente valorizadas pela igreja
para criar seus santos, como a morte violenta, a dedicação
ao próximo, etc. e, é claro, a comprovação
dos milagres mediante investigação também são
utilizados pelos crentes para santificação de alguém.
Camilo Salgado, por exemplo, é tido como alguém que se dedicava
aos pobres, fazendo cirurgias e consultas gratuitamente e, mesmo no dia
de sua morte, ocorrida de forma repentina, fruto de um ataque cardíaco,
ainda teria tratado de seus pacientes. É o simbolismo da caridade
que se evoca aqui. Um outro elemento importante nessa relação,
refere-se ao fato de que a igreja, mesmo não considerando essas
pessoas como santos de fato, é levada a respeitar essas manifestações
do sagrado, e vale lembrar que muitos santos que hoje são oficiais,
começaram sua "carreira" como santos populares, o que
indica que mesmo a Igreja tendo seus dogmas e tentando impor suas idéias
à população, esta tem suas próprias maneiras
de interagir com o sagrado.
Aliás, em Belém nós temos o caso de Severa Romana,
uma moça casada com um soldado e morta por outro que a assediava,
no ano de 1900. Severa Romana estava grávida de sete meses e o
crime abalou a cidade. Vários fatores foram invocados para sua
santificação: a fidelidade ao marido, a resistência
ao assédio sexual, a morte de forma brutal. Muitos milagres passaram
a ser atribuídos a esta "santa", vista como "mártir
da fidelidade", levando a igreja a recolher informações,
na década de 1970, para sejam examinadas com vistas a uma possível
beatificação e posterior canonização da moça.
No entanto, o processo não foi à frente pois há quem
diga que Severa não era batizada. Mas, o caso relatado deixa evidente
que a igreja não pode ser indiferente a essa religiosidade popular,
que tem sua própria lógica de funcionamento, e não
fica inerte aos ditames que emanam da cúpula de poder, mas resignifica
elementos, fundindo-os com os de outras formas de religião.
Prometeu: Que novidades você vê na sociedade que
tenham contribuído ou alterado o cenário estudado em sua
tese, sejam estas novidades religiosas (maior popularização
de religiões não-católicas, por exemplo), sociais
(tais como a globalização) ou científicas (maior
acessibilidade às práticas médicas modernas etc)
Éden - Antes de falar dos aspectos religiosos, científicos
e sociais, gostaria de mencionar o papel, a meu ver importante, desempenhado
pela imprensa, sobretudo escrita, na construção desses santos
populares. Por ocasião da morte de Camilo Salgado em 1938, o jornal
Folha do Norte dedicou um bom espaço de suas páginas
à vida, aos feitos e à própria morte do médico,
retratando com detalhes o cortejo fúnebre que era acompanhado de
centenas de pessoas conduzindo, nas palavras do jornal, os sagrados despojos
do médico. Essa frase é interessante, pois um dos atributos
de uma pessoa santa é justamente o corpo santo, do qual emanam
poderes curativos. Portanto, o que se percebe é que o jornal já
naquela época acabava contribuindo para dar a Camilo Salgado uma
aura de santidade. Isso também ocorreu com outros jornais e outros
santos e santas em nossa cidade, como foi o caso de uma menina que foi
morta e esquartejada pelo pai, causando grande comoção na
cidade. Um dos jornais que melhor retratou o acontecimento, A Província
do Pará, não hesitou em dizer que mais uma santa viria
a ser incorporada pelo povo ao já conhecido panteão de santos
populares em nossa cidade. Aliás, nos últimos 25 anos, principalmente
no período de Finados, a imprensa escrita e televisiva dedica inúmeras
reportagens falando desses santos populares, o que não ocorria
40 anos atrás. Não estou dizendo que a imprensa cria estes
santos, mas contribui para manter viva essa fé coletiva em tais
figuras.
A expansão do espiritismo, doutrina liderada pelo médico
Allan Kardec no século XIX e que segundo o pesquisador argentino
Duncan Pedersen se expandiu pela América Latina ainda naquele século,
e que incorporou inúmeros médicos já falecidos em
sua hoste de espíritos curadores, merece aqui uma lembrança.
Este pesquisador analisou inúmeros casos do que ele chama de "Medicalizácion
de los cultos curativos" na Colômbia, na Venezuela etc, onde
os médicos do Além são responsáveis por inúmeras
curas. Em Belém, acho que o culto a Camilo Salgado e a outros médicos,
como Crasso Barbosa e João Carlos Maciel se incluem nessa categoria.
Existem indícios de que Camilo Salgado tinha contato com centros
espíritas prestando assistência aos doentes, e isso é
bem provável em decorrência da proliferação
dessa doutrina em Belém no início do século XX. Não
podemos esquecer também que ao estudar na França, Camilo
Salgado possivelmente teve contato com essas idéias e após
a sua morte foi incorporado à hoste de médicos de além-túmulo
na doutrina de Kardec. É inegável o crescimento do espiritismo
kardecista nos últimos anos e acho que isso tem permitido que o
culto a Camilo Salgado no cemitério de Santa Isabel se torne cada
vez mais forte, pois muitos católicos e umbandistas também
buscam os centros espíritas para se curar de suas doenças
e são aconselhados a buscar o seu túmulo para fazer suas
orações e pedidos.
A medicina científica, apesar dos incontestáveis avanços
que tem conseguido nos últimos tempos, não conseguiu ainda,
por conta de questões sociais e econômicas, democratizar
o acesso a esses benefícios. Milhares de pessoas não usufruem
de novos tratamentos para várias doenças e acredito que
isso pode ser um elemento que leva as pessoas a procurar ajuda nesse outro
mundo, nessa ciência do Além, de inesgotáveis recursos.
Além disso, esses avanços científicos talvez levem
as pessoas a intensificar sua fé na ciência médica
e conseqüentemente na figura do médico e, por tabela, nos
médicos-santos. Por outro lado, as doenças são persistentes
e nos assaltam no dia-a-dia, em virtude de nosso comportamento alimentar,
social, dos problemas crônicos de nossas cidades, como lixo, saneamento
básico, o ritmo da vida moderna que leva ao estresse e outros problemas
e o medo de adoecer ou morrer são fatores que não nos deixam
sossegar, e a ciência médica ainda não tem respostas
definitivas para muitas doenças e enfermidades. Mas mesmo que venha
a ter, talvez as pessoas continuem depositando, como me disseram alguns
devotos, um percentual maior de sua confiança na medicina que vem
desse mundo espiritual.
Prometeu: O que você gostaria de destacar em seu estudo,
que você considera relevante para os leitores?
Éden - Acho que esse é um tipo de culto em busca
da saúde de tipo singular, pois ao contrário dos serviços
de saúde oferecidos pelas religiões para angariar fiéis,
no caso em questão estamos diante de uma manifestação
criada a partir dos próprios interesses populares, um tipo de contato
com o outro mundo que não necessita de intermediários, como
padres, pastores, pais-de-santo, pajés etc... Assim, o culto e
a devoção a Camilo Salgado e outros médicos são
uma resposta à aflição, e não deixa de representar
a fé que se deposita no médico como fonte de nossa salvação.
Por outro lado, permite visualizar as várias estratégias
construídas pelas pessoas para se livrar de um problema ou mesmo
não adoecer, já que mesmo buscando um santo curador, as
pessoas entrevistadas também fazem uso da medicina científica
e da popular, em um interessante intercâmbio que vai da ciência
- no caso a medicina - à religião. A figura de Camilo Salgado,
ao ser cultuada, acaba por aproximar duas esferas aparentemente antagônicas,
mas que se combinam no símbolo do médico-santo. Assim, acredito
que a pesquisa permite uma reflexão sobre os percursos da cura,
em que ciência, fé e santidade são aspectos co-participantes
na expressão dessa religiosidade.
Veja também:
Matéria
sobre relação de pacientes com a medicina convencional na
comparação com a medicina alternativa
Palavras-chave:
Medicina, religião, fetichismo, santos, santificação,
saúde, fé popular
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